Comportamento

Aumento de ansiedade e depressão no trabalho atinge índices alarmantes

A ansiedade e a depressão tornaram-se problemas cada vez mais recorrentes e alarmantes no ambiente corporativo brasileiro. Em meio às pressões do dia a dia e à rotina exigente, a sobrecarga emocional tem levado milhares de trabalhadores ao limite, transformando o cansaço cotidiano em adoecimento mental severo.

Alertando para a urgência de identificar os primeiros sinais, a psiquiatra Ana Paula Ruocco Nonato Matsumota destaca que a mudança no padrão de esgotamento é o principal ponto de atenção:

“É importante perceber quando aquele cansaço começa a ser diferente, quando descansar já não parece suficiente ou quando atividades que antes eram realizadas normalmente passam a exigir um esforço muito maior. Mudanças no sono, no humor, na concentração e na disposição também precisam ser observadas”, explica a médica.

A dimensão do problema é confirmada pelos dados oficiais. Em 2025, foram registrados 157.235 afastamentos do trabalho relacionados a transtornos ansiosos e 122.222 por episódios depressivos no Brasil. O levantamento foi realizado pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), com base em registros do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Como diferenciar o cansaço do adoecimento mental?

Sintomas como exaustão que não melhora com o repouso, dificuldade de concentração, irritabilidade, alterações no sono e perda de interesse por atividades rotineiras são alertas frequentes no ambiente profissional. Contudo, nem sempre é fácil perceber quando esses sinais deixam de ser consequência de um período pontual e exigem intervenção médica.

Conforme esclarece a Dra. Ana Paula, períodos de preocupação, estresse ou maior desgaste fazem parte da vida e, isoladamente, não significam a presença de um transtorno mental. O alerta real surge quando ocorrem mudanças persistentes no comportamento, no humor ou na rotina da pessoa.

Os impactos do sofrimento emocional no trabalho e na vida pessoal

No ambiente de trabalho, o sofrimento emocional manifesta-se de diversas formas, tais como:

  • Queda acentuada no rendimento profissional;

  • Dificuldade para organizar tarefas ou tomar decisões;

  • Esquecimentos frequentes;

  • Irritabilidade constante;

  • Ansiedade diante de situações operacionais que antes eram enfrentadas com naturalidade.

Os reflexos, porém, não se limitam ao escritório ou à fábrica. Eles frequentemente transbordam para as relações afetivas, o convívio familiar e os momentos de lazer.

“Quando a pessoa chega em casa, mas continua mentalmente ligada ao trabalho, não consegue descansar, começa a se afastar das pessoas ou perde o prazer por coisas que costumavam fazer bem, é um sinal de que vale parar e olhar com mais cuidado para o que está acontecendo”, afirma a psiquiatra.

A importância do diagnóstico precoce e da busca por ajuda

Para a especialista, um dos maiores obstáculos para a recuperação ainda é a tendência cultural de minimizar o sofrimento e adiar a procura por auxílio profissional, sob a falsa expectativa de que a situação se resolverá sozinha.

“Muita gente tenta seguir a rotina acreditando que precisa dar conta de tudo ou que aquilo vai passar sozinho. Não é preciso chegar ao limite para procurar atendimento. Quanto antes conseguimos entender o que está acontecendo, mais cedo é possível iniciar o cuidado adequado”, destaca a médica.

A avaliação médica permite identificar se os sintomas estão relacionados a um momento pontual de sobrecarga ou se integram um quadro clínico que exige acompanhamento e tratamento específico. Além disso, o diagnóstico auxilia na compreensão dos fatores envolvidos e na indicação da abordagem mais adequada para cada indivíduo.

“Procurar ajuda não significa que a pessoa fracassou ou não conseguiu lidar com a própria rotina. É uma forma de cuidado. Muitas vezes, reconhecer que algo mudou e buscar orientação é justamente o primeiro passo para recuperar o equilíbrio e a qualidade de vida”, conclui a Dra. Ana Paula.

Conscientização e prevenção

O debate sobre a saúde mental nas empresas ganha uma oportunidade de reflexão com a chegada do Dia do Psiquiatra, comemorado em 13 de agosto. A data reforça a importância da conscientização sobre o tema, lembrando que a prevenção, o diagnóstico precoce e a desmistificação do cuidado psiquiátrico são fundamentais para conter a onda de afastamentos e garantir a qualidade de vida no trabalho.

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