Comportamento

Por que as pessoas se tatuam?

Décadas atrás, tatuagem era coisa de marginais —a escória da sociedade. Ladrões, assassinos, prostitutas, viciados, marinheiros e trabalhadores braçais de caráter duvidoso… Rabiscos rudimentares, desenhos toscos e letras tortas eram eternizados nas peles, na maioria das vezes sem a mínima condição de higiene.

O cenário começou a mudar em 1959, quando o dinamarquês Knud Harald Lykke Gregersen montou um estúdio profissional na beira do cais santista, onde usava, até então inédita, uma máquina de tatuar.

A beleza e personalidade das imagens do estrangeiro, o Lucky Tatoo, conquistou cada vez mais adeptos e a arte sobre a pele rompeu as fronteiras da marginalidade. Hoje, tornou-se comum a ponto de quem não possuir uma tatuagem ser a exceção.  Mas por que as pessoas se tatuam?

Beleza, reconhecimento, superação

Doutor em Psicobiologia, o professor Marcello Árias Danucalov explica que existe uma série de fatores que levam uma pessoa a se tatuar, relacionados à maneira como o indivíduo se percebe no seu grupo pessoal e também aos valores pessoais.

Danucalov, que é especialista em Neurobiologia do Comportamento Humano e possui imensas tatuagens, sugere algumas respostas sobre as razões pelas quais as pessoas eternizam traços e figuras na própria pele.

As pessoas se tatuam para ficar mais bonitas?

Marcello Árias Danucalov- Provavelmente, sim. Se a pessoa se preocupa em ser o centro do universo, ser vista, ter prazer, obter felicidade, ela acredita que todos os seus desejos devem ser satisfeitos. Culpabiliza terceiros a todo momento, quer chamar a atenção para si, quer que os outros a percebam. Muitos jovens podem se tatuar justamente por isso. “Me percebam, eu sou bonito, sou uma pessoa que vale a pena pousar o olhar”.

Neste momento, as pessoas se tatuam com símbolos que não têm muito a ver, que provavelmente lá na frente elas podem se arrepender, porque era um motivo meramente estético, um adorno. Às vezes, quando se é pequeno, tem um quarto que lhe agrada esteticamente, mas, quando cresce, diz: “caramba, vou jogar fora esse quadro, ele não me representa mais”. Então, sim, algumas pessoas se tatuam para ficar mais bonitas.

As pessoas se tatuam para marcar valores pessoais?

Danucalov- Sim. A pessoa se vê como integrante de um campo social, que tem pessoas jogando o mesmo jogo, obedecendo às mesmas normas, jurídicas e tácitas, que fazem com que esse jogo possa acontecer. O respeito a essas normas e valores é compreendido e levado em consideração por essas pessoas que já se veem como agentes sociais. Nesse sentido, a tatuagem pode representar estes valores sólidos, como princípios norteadores de conduta. A pessoa olha a própria tatuagem e pensa: “isso me representa, é algo importante para mim”. A pessoa busca colocar símbolos que representem os critérios de tomada de decisão que ela leva em consideração quando é submetida a uma pressão.

As pessoas se tatuam para delimitar pertencimento a um grupo?

Danucalov- Com certeza. No Japão, por exemplo, os Yakuzas têm tatuagens maravilhosas que são feitas como um rito de passagem para a organização. No Brasil, a tatuagem entrou com o estigma de tatuagem de cadeia, no qual os presos se tatuavam para identificar a qual facção pertenciam.

Podemos pensar também que um adolescente que quer ser percebido pode abdicar da própria individualidade para ser aceito por um grupo. Por exemplo, se ele quer ser aceito pelo grupo de cabelo comprido, que se veste de preto e gosta de heavy metal, pode tatuar o símbolo do AC DC ou do Black Sabbath no braço, para que ele seja aceito naquela comunidade. Não são só adolescentes buscando aceitação, mas adultos também.

Por que dizem que se tatuar “vicia”?

Danucalov- Porque todos nós somos potencialmente adictos, podemos desenvolver hábitos. Existem os hábitos virtuosos e outros que são viciosos. Se você nasceu com uma tendência genética para desenvolver determinado comportamento, pode, sim, se habituar a se tatuar.

Algumas pessoas relatam ter prazer com a dor no ato de se tatuar. Por que?

Danucalov- É uma questão extremamente filosófica. As coisas que são doloridas tendem a ser mais prazerosas. Quando se tem um certo nível de desafio, que é suficientemente intenso que você possa transpassá-lo e não pouco intenso a ponto de desmotivá-lo, o prazer pode ser maior. O prazer de fazer um curso muito bem feito, estudar e falar “consegui, me esforcei”. O prazer de treinar, conseguir superar uma marca pessoal e lembrar da dor, do esforço. O prazer está atrelado a algum tipo de dor também. “Eu paguei um preço para obter essa obra de arte, só eu sei”. Acredito que a maioria das pessoas não se sentiria muito bem se simplesmente acordassem com uma tatuagem: “Uau! O que é isso aqui? Nossa, uma tatuagem!”.

A tatuagem é um rito, um momento muito importante para muitas pessoas, e essa dor é um símbolo do preço que a pessoa pagou para ter uma coisa bacana e que vai carregar para o resto da vida. É uma dor completamente tolerável, que está no limiar do suportável, mas depois que termina provoca um grande bem estar: “eu consegui vencer isso, essa tatuagem me pertence, pois eu paguei um preço bacana”. É um sacrifício compensador. A dor tem a ver com esse prazer, um orgulho de ter passado por um ritual, que lhe presenteou no final com uma conquista.

Tão antiga quanto a humanidade

A prática de se tatuar é tão antiga quanto andar para frente. O primeiro tatuado que se tem notícia foi o de um homem cujo corpo foi encontrado fossilizado em 1991, nos Alpes. Estima-se que o Homem de Ötzi tenha vivido 3.300 anos antes de Cristo. Em seu corpo foram encontradas mais se 50 tatuagens: nas costas, tornozelos, punhos, joelhos e pés. Supõe-se que os desenhos tenham sido feitos a partir da fricção de carvão em cortes verticais na pele.

Apesar de as populações não terem contato direto, a prática de se tatuar foi encontrada em diversos continentes, ao longo de séculos, com diferentes finalidades: rituais religiosos, identificação de grupos sociais, marcação de prisioneiros e escravos, ornamentação e até mesmo camuflagem. Aborígenes, esquimós, africanos, indianos, índios amazônicos… cada povo com sua particularidade, cultivavam o hábito de eternizar marcas e sinais pelo corpo.

A palavra tattoo é uma derivação de “tatau”, que era como os nativos da Taiti denominavam a prática de pintar a pele introduzindo tinta usando varetas de madeira. O primeiro ocidental a descrever a palavra e o procedimento foi o capitão James Cook, em 1769. Os marinheiros ingleses gostaram e levaram o hábito polinésio para outras partes do mundo. A tatuagem se disseminou ainda mais a partir de 1891, quando foi inventada a máquina elétrica.

Lucky Tattoo, o pioneiro da tatuagem no Brasil

O dinamerquês Knud Harald Lykke Gregersen, o Lucky Tattoo, introduziu a tatuagem profissional do Brasil, em 1959, quando abriu um estúdio na área portuária de Santos. Além de trabalhadores do porto e surfistas, Lucky tatuou um dragão no braço do surfista José Arthur Machado, o Petit, que ficou imortalizado na música “Menino do Rio”, de Baby do Brasil.

Lucky Tatoo em seu ateliê no Centro de Santos, em 1968

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