Plínio Marcos, dramaturgo das quebradas do mundaréu
Plínio Marcos, dramaturgo
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Plínio Marcos, porta-voz das quebradas do mundaréu

A aparência rude, tosca até, ocultava o brilhantismo daquele cara barbudo, com roupas amarrotadas e jeito desleixado. Como ninguém, Plínio Marcos era capaz de traduzir em palavras a realidade nua e crua das quebradas do mundaréu, onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Marujos, pistoleiras, trombadinhas, gogozeiros, morféticos… Estavam todos lá, nas crônicas e peças de teatro. E com —muito— estilo.

Plínio Marcos escrevia quando estava incomodado. Tanto que começava e só parava quando a obra estava completamente pronta. Eram páginas e páginas de uma tacada só.

Palhaço Frajola

Nascido em 29 de setembro de 1935, Plínio Marcos tentou ser jogador de futebol, mas não deu. Depois, durante cinco anos, trabalhou no circo —era o palhaço Frajola. Até que se descobriu no teatro. Na verdade, descoberto, por Patrícia Galvão, a Pagu. Foi ator, chegando até a estrelar em novelas da TV. Mas foi escrevendo que revelou todo seu talento.

“Barrela” (1958), “Dois Perdidos Numa Noite Suja” (1966), “Navalha na Carne” (1967), “Quando as Máquinas Param” (1972) e “Querô” (1979), obras que são contundentes socos no fígado da intolerância, hipocrisia e omissão da sociedade. Durante a ditadura militar, Plínio Marcos foi implacavelmente perseguido. Ele mesmo se divertia ao contar um encontro seu com um censor:

Plínio— Por que me censurou?

Censor— Porque suas peças são pornográficas e subversivas.

Plínio— Mas por que são pornográficas e subversivas?

Censor— São pornográficas porque têm palavrão. E são subversivas porque você sabe que não pode escrever com palavrão e escreve.

Tal perseguição fez com que merecesse, no sentido pleno da palavra, a condição de marginalizado. As obras de Plínio Marcos não vendiam nas livrarias e, por isso, ele mesmo as oferecia nas portas de teatro e em bares e restaurantes. “Compre que eu prometo morrer logo para valorizar”, divertia-se. Nos últimos anos de vida, passou a se dedicar também à leitura de cartas de Tarô.

Plínio Marcos e a polêmica com anão

Em 1998, acabou enfiado em mais uma polêmica, quando o diretor Marco Antônio Rodrigues tentou montar a peça “O assassinato do anão do caralho grande” e foi impedido pelo prefeito da época, Beto Mansur, e a secretária de Cultura, Wilma Therezinha. Defendeu-se nas páginas do Jornal da Orla. Meses depois, ofereceu-se para ser colunista do jornal. “Quero falar para a minha cidade e sei que no Jornal da Orla vou ter total liberdade”, argumentou.

E escreveu, durante dez meses. Exibia em sua “Janela Santista” personagens divertidos e malditos, situações inusitadas, cruéis e cômicas.

Plínio Marcos e as obras para crianças

Apesar de a parte de sua obra com maior repercussão ser a chamada “literatura marginal”, Plínio Marcos também produzir peças para crianças. Entre elas, “As aventuras do coelho Gabriel” (1965), “História dos bichos brasileiros: o coelho e a onça”, “Onça que espirra não come carne” (1988) e “Assembleia dos ratos”.

O teatro para crianças criado por Plínio é marcado pela crítica ao conflito entre opressores e oprimidos. Em “Onça que espirra não come carne”, o dramaturgo faz uma alusão metafórica ao regime ditatorial brasileiro.

Esta faceta pouco conhecida de Plínio Marcos é analisada em artigo do pesquisador Sérgio Manoel Rodrigues, e publicado na Revista Crioula.

Saúde debilitada

Produziu até quando a saúde permitiu. No começo de novembro de 1999, sofre dois derrames e foi parar na UTI do Instituto do Coração. Só saiu de lá morto. Faleceu no dia 19. Seu corpo  foi cremado e as cinzas lançadas ao mar na Ponta da Praia, em uma emocionante homenagem.

Mas podes crer que sua alma ainda está por aí, perambulando pelos corredores do Copam ou as ruas do Macuco, sentado na arquibancada vendo seu Jabuca jogar, à mesa predileta no Gigheto ou vendo os peladeiros disputando bola na Ponta da Praia.

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