Pelé esteve em sua escolinha de futebol, em Santos, nesta quinta-feira para comemorar um ano de fundação do local.
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O dia em que dei meu ombro amigo a Pelé Eterno

24 de junho de 2004. Na frente do Cine Roxy, em Santos, uma multidão se aglomerava à espera da grande estrela daquela noite. Centenas de pessoas, das mais variadas idades, famosas e anônimas, e dezenas de jornalistas — as principais emissoras de país e outras 10 estrangeiras.

Um carro para na porta do cinema e dele sai o protagonista do filme que estava sendo lançado: o documentário “Pelé Eterno”. Literalmente enfeitiçadas, as pessoas avançam na direção do veículo para ver mais de perto, fotografar, tocar Edson Arantes do Nascimento.

Os seguranças tentam afastar os admiradores e abrem uma pequena brecha na aglomeração para o Rei do Futebol conseguir chegar ao interior do cinema.

Por uma dessas razões sobrenaturais, eu fico no meio da clareira aberta pelos seguranças e dou de cara com Pelé. Ele, pensando que eu era mais um dos seguranças, coloca a mão no meu ombro direito e fala: “Vamos entrar, vamos entrar. Eu vou me escorando em você”.

E lá fomos nós. Eu conduzindo uma das maiores celebridades da história até o interior do cinema.

Foi a primeira vez que vi Pelé pessoalmente. Desde o início da minha carreira, um grande sonho (ou objetivo) meu era fazer uma entrevista com Pelé. Mas sempre que ele vinha a Santos para algum evento, acontecia uma ou outra coisa que adiava este encontro pessoal.

Depois desse, na estreia do documentário dirigido por Aníbal Massaini Neto, vários outros aconteceram, a ponto de Pelé já me reconhecer e até me chamar pelo nome — adicionando um “s” ao final de Marco, mas tudo bem…

Certa vez, julho de 2010, quando Pelé esteve em Santos para lançar a pedra fundamental do Museu Pelé, no Valongo, eu perguntei a ele sobre um desaforo dito por Maradona dias antes — o ídolo argentino disse que “Pelé deveria voltar para um museu”. Cercado por uma multidão de jornalistas e fãs, Pelé bateu de primeira:

“Não sei se ele falou isso, mas se falou deve ser inveja porque ele não tem o Museu Pelé. Pode ter até uma igreja na Argentina, mas museu não tem. O Maradona me ama. Sempre fala de mim. Sempre o ajudei. Fui no programa de televisão dele. Fui na Bombonera arrecadar fundos para ajudá-lo. Tudo bem. Quanto a quem foi melhor jogador, ainda acho que um dia ele vai aprender a cabecear bem e chutar com a perna direita”, disse.

Mas o que eu quero contar e é o que pesa na balança é a comoção gerada pelo Rei do Futebol por onde passava. Pelé contagiava os ambientes com um magnetismo inexplicável — resultado não só de seus impressionantes recordes no futebol mas, principalmente, pelo carisma.

Uma vida de vitórias, títulos e recordes

Não são apenas os recordes pessoais e conquistas dentro das quatro linhas que explicam a grandeza de Pelé, o Rei do Futebol. O carisma, alegria e simpatia encantam o mundo há décadas. Por onde passa, Edson Arantes do Nascimento cativa multidões, diverte e inspira.

As marcas de Pelé dentro das quatro linhas são extraordinárias. Em 1363 jogos, fez, documentados, 1283 gols — embora a Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS) considere apenas 765 gols, desprezando amistosos e partidas do campeonato paulista.

Foi três vezes campão mundial (1958, 1962 e 1970), bicampeão mundial de Clubes (pelo Santos FC, em 1962 e 1963), maior goleador da história da Seleção Brasileira (77 gols em 92 jogos). Mas a magia do futebol de Pelé não está nos resultados, mas na maneira como ele os obtém. O poeta Carlos Drummond de Andrade resumiu: “O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé”.

Pelé foi autor de jogadas memoráveis, mesmo as que não resultaram em gol. Dribles, chutes (com os dois pés), cabeceios, passes… A força, velocidade, elegância, criatividade ficaram eternamente gravadas nas retinas e mentes de milhões de pessoas que acompanharam seus feitos, seja pessoalmente nos estádios, pelos aparelhos de TV ou, mais recentemente, nos vídeos da internet.

Pelé inspirou diversos outros jogadores de futebol. Foi com ele que se criou a magia da Camisa 10, que tornou-se símbolo de melhor jogador do time.

Ídolo das celebridades

O carisma de Pelé fez com que ele se tornasse uma das personalidades mais famosas de toda a história da humanidade. Reverenciado por reis e rainhas, presidentes, líderes religiosos e magnatas, a maior Majestade de Futebol cativou a praticamente todos por onde passou —a ponto de até mesmo interromper uma guerra.

Em 1969, a Nigéria sofria com um sangrento conflito interno. O prefeito da cidade de Benin fez um apelo para que as duas facções interrompessem os confrontos para a realização de uma partida entre o Santos FC e o time local. Então, ocorreu uma trégua de três dias e o jogo foi realizado, em 4 de fevereiro daquele ano.

Pelé foi um embaixador do futebol pelo mundo. Viajou por dezenas de países, levando seu carisma — não à toa, a Federação Internacional de Futebol (FIFA) tem hoje mais países afiliados (211) do que a Organização das Nações Unidas (ONU), que possui 193.

Sua desenvoltura e simpatia permitiram que brilhasse também em diversos filmes publicitários e do cinema.

Polêmicas fora de campo

Porém, e, como dizia o dramaturgo Plínio Marcos, sempre tem um porém, Pelé foi criticado por algumas de suas posturas fora de campo. As queixas mais recorrentes se referem a um suposto apoio à ditadura militar brasileira (1964-1985) e omissão do Rei de Futebol no enfrentamento do racismo.

São temas complexos, repletos de aspectos, que permitam as mais variadas interpretações.

Outro ponto polêmico, este da vida pessoal de Pelé, é sua relação com Sandra Arantes do Nascimento, que precisou recorrer à Justiça o direito de ser reconhecida como filha do Rei do Futebol.

A saúde do Rei

O estado de saúde de Edison Arantes do Nascimento vinha se agravando desde setembro de 2021, quando foi submetido a uma cirurgia para retirada de um tumor no cólon. A situação clínica piorou em janeiro de 2022, quando foi diagnosticado câncer metastático, ou seja, generalizado. O tumor primário no intestino se expandiu para outros órgãos do corpo, como o fígado e o pulmão.

Edison Arantes do Nascimento estava internado no Hospital Albert Einstein desde 29 de novembro. Sua família assegura que seu estado é bom e que ele se encontra em recuperação, mas dois veículos de comunicação (ESPN e Folha de S. Paulo) apuraram que o tratamento quimioterápico não apresenta mais respostas e o paciente estaria recebendo cuidados paliativos, isto é, procedimentos para evitar sofrimento mas sem capacidade de reverter a situação.

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