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Comportamento

Cruzada pela saúde

A cozinheira Lobo está à frente de uma verdadeira cruzada de saúde pública: fazer com que as pessoas passem a preparar a própria comida

A pretexto da “correria” e das “facilidades” do mundo moderno, as pessoas deixaram de cozinhar em casa e estão comendo mal. E, pior, nem comida de verdade é! A consequência direta disso é o aumento do número de pessoas doentes, com sobrepeso, problemas renais, hepáticos, hipertensão, diabetes…

Quem alerta é a cozinheira Rita Lobo, autora de diversos livros de receitas culinárias, apresentadora de um programa de TV de nome sugestivo (“Cozinha prática”) e comandante de um dos sites mais populares da internet, o “Panelinha”.

Rita Lobo está conduzindo uma verdadeira cruzada de saúde pública, que tem como principal objetivo levar os brasileiros de volta para a cozinha e preparar a própria comida. “Em 1970, o país tinha 37% de desnutrição infantil e hoje tem 50% de pessoas com sobrepeso”, explica. Segundo ela, é resultado da má alimentação, do consumo exagerado de alimentos ultraprocessados. “Antes, havia o macarrão, mas não a lasanha pronta, que é só esquentar no micro-ondas. É imitação de comida. É feita a partir de comida, mas tem tantos aditivos, para mudar o sabor, a cor, a textura, o aroma, que deixa de ser comida”, argumenta.

Formada em gastronomia na Institute of Culinary Education, de Nova York (EUA), Rita Lobo abraçou a causa após ter contato com epidemiologistas da Universidade de São Paulo (USP), que, em 1995, detectaram que os brasileiros estavam engordando de forma epidêmica. “Eles pegaram a POF (Pesquisa de Orçamento Familiar) e constataram que o consumo de açúcar, sal e óleo estava caindo, mas a população estava engordando. Aí descobriram que quem compra açúcar, sal e açúcar é porque cozinha, não compra comida pronta”, explica.

“A grande indústria alimentícia vende uma ideia de que não é preciso cozinhar e prático é pegar a lasanha do congelador e colocar no micro-ondas. Os alimentos ultra processados são os que imitam comida e expulsam os alimentos de verdade da nossa mesa”, completa.

Rita Lobo cita outro exemplo: “Hoje, quando se fala em iogurte, a pessoa pensa naquele negócio que se chacoalha e toma, naquele outro que regula o intestino, ou no outro que é ‘uma explosão de sabores’. Quem se der ao trabalho de ler a lista de ingredientes no rótulo vai cair para trás. Tem uma base de iogurte, mas tem um emulsificante, para ficar com uma textura mais cremosa; um saborizante para deixar o sabor mais morango do que o morango de verdade”, alerta. “As pessoas fazem escolhas sem se dar conta que o entendimento delas de alimentação saudável é regido pela grande indústria. A gente tem que ser radical e expulsar os ultraprocessados do cardápio”, reforça.

Rita Lobo resume didaticamente a maneira mais adequada se escolher os alimentos: “Se você falar ‘coma duas porões de carboidrato, uma de proteína e reduza a gordura a meia porção’, a pessoa vai ficar sem entender nada. Mas, se falar ‘coma comida comprada na feira e feita em casa e evite tudo que é feito na fábrica’ a pessoa entende”.

Gourmetização

O grande número de programas de TV e vídeos na internet demonstram que cozinhar é um dos modismos do momento. Rita Lobo não vê isso de modo negativo. “”Este modismo veio em excelente momento porque a gente saiu de um momento que era “cozinhar é coisa de dona de casa desocupada” para um momento em que cozinhar não é um assunto “de dona de casa”, mas ‘da casa’. É uma tendência, como em todos os outros modismos, mas que ainda não começou a cair”.

Padrão tradicional

Para a especialista, é preciso resgatar o valor da culinária tradicional. Os países com menores índices de obesidade são os que preservam o que Rita chama de padrão tradicional de alimentação e exemplifica: “Japão, França, Itália, Espanha têm a alimentação baseada em comida de verdade, sem ultraprocessados”.

Segundo ela, o Brasil tem uma grande vantagem, pois tem uma identidade culinária, mas que precisa ser resgatada. “Está na hora de voltar a cozinhar o arroz com feijão, valorizá-lo. É esse padrão brasileiro que inclui todas as hortaliças, as carnes, as farinhas (de mandioca, de milho), tapioca. É a dieta mais acessível, leva em conta os alimentos que temos em abundância no país. Os Estados Unidos estão numa situação muito pior. Não têm para onde voltar. Não têm um padrão tradicional de alimentação”, afirma.

Rita Lobo cita a frase de outra autoridade no mundo da comida saudável, o jornalista americano Michael Pollan: Não coma nada que sua bisavó não reconheceria como comida. “Ele se refere à época em que não existia comida feita na fábrica”.

Planejamento

Mas como preparar a própria comida num mundo em que todos estamos atolados de atividades e, por isso, “sem tempo”? Para Rita Lobo, a solução é planejar. “Divida tarefas, planeje as compras, porcione, aproveite o congelador”, diz.  “Nos finais de semana, as famílias têm que fazer um panelão de feijão, porcionar e congelar. Durante a semana, faz um refogado, descongela o feijão, tempera, está pronto. Uma coisa que você faz em dez minutos. Consegue resolver o jantar, o almoço, a  marmita”.

Aprender a cozinhar

Rita Lobo alerta que é normal as pessoas dizerem que não têm tempo, mas, na verdade, não sabem cozinhar. “Cozinhar é como ler e escrever, todo mundo deveria saber. E é como ler e escrever também porque ninguém nasce sabendo. Na cozinha, a gente não necessariamente precisa ir para a escola mas precisa aprender, seja com sites, programas de TV e livros. Tem uma geração aí que não conseguiu aprender porque as mães pararam de cozinhar”. Para ela, cozinhar não serve só para alimentar o corpo, mas as relações, estimular a criatividade. “É a ferramenta mais eficiente para a gente ser saudável, em todos os sentidos”, finaliza.

Combate aos exageros

Ela alerta para os radicalismos em busca da alimentação saudável, lembrando de uma pergunta feita numa rede social. “Eu fiz um tweet exemplificando uma tendência geral das pessoas pedindo “dá para substituir não-sei-o-que por óleo de coco, ovo por iogurte, arroz por quinoa?”. Não, não dá! Arroz, feijão, ovo, são insubstituíveis. Esse tweet foi uma compilação de pedidos, os mais esdrúxulos, e a minha resposta para isso é: não dá! Foi incrível, porque abriu uma discussão no Brasil. A gente precisa entender que comer frango com batata doce e salada todos os dias não é uma alimentação saudável”, diz. “Uma vez, a pessoa pediu uma receita de torta com metade das calorias. Sugeri a de uma torta deliciosa e completei: “coma a metade do que comeria”.

Tipos de alimentos

Após várias pesquisas, cientistas da USP dividiram os alimentos:

In natura e minimamente processados- Todas as frutas, verduras, legumes, grãos, carnes.

Ingredientes culinários- Óleo e outras gorduras (azeite, manteiga, banha); sal e outros temperos; o açúcar. São os ingredientes que usados para fazer a comida, mas não são comidos isoladamente.

Alimentos processados- Sofrem pouca manipulação: pão, queijo, macarrão, carne seca, bacalhau. Podem (e devem) fazer parte da alimentação, mas não ser a base dela.

Alimentos ultraprocessados- São os produtos industrializados, que possuem uma profusão de aditivos químicos para alterar ou ressaltar aromas, cores, sabores, texturas e retardar a deterioração.

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