Kasato Maru
Experiências

Centenário da imigração japonesa ofereceu séculos de ensinamento

Por mais que alguém que lhe fale ou você leia sobre as particularidades do comportamento dos japoneses, é apenas no contato pessoal que se percebe as grandes diferenças no modo nipônico de pensar e se relacionar com os outros.
Para mim, a grande prova foi em 2008, quando se comemorou o centenário da chegada do navio Kasato Maru ao Porto de Santos, marcando o início da imigração japonesa no Brasil. Tive contato com japoneses da gema e vi, a poucos metros, o próprio príncipe do país oriental. São nos detalhes que se percebe as diferenças entre nosso modo tropical de viver e as tradições seculares da Terra do Sol Nascente.

Kashima,  “Asagiri” e “Umigiri

Pontualidade nipônica

A programação do centenário se iniciou com a chegada de três grandes embarcações nipônicas (os navios “Kashima, o “Asagiri” e “Umigiri”), na manhã de 18 de junho. Atracaram com pontualidade britânica, exatamente às 9h, o mesmo horário em que o Kasato Maru atracou no armazém 14, em 1908, trazendo a bordo os primeiros 781 japoneses, após 52 dias de viagem.

Para chegar a Santos, as embarcações deram a volta ao mundo no sentido inverso feito pelo Kasato Maru. Diferente do navio pioneiro, que veio ao Brasil no sentido oeste (passando pela costa da África), a esquadra atravessou o Oceano Pacífico, fez escala no Havaí, e chegou à costa do nordeste brasileiro após passar pelo Canal do Panamá, na América Central.
Santos foi apenas uma das escalas de uma viagem de treinamento da Marinha japonesa, que saiu de Tóquio no dia 15 de abril e passou por 13 portos, em 10 países, percorrendo um total de 30 mil milhas, e retornando ao Japão em 18 de setembro. A bordo, 730 tripulantes (170 deles oficiais recém-formados ou em treinamento).

Dois dos navios foram abertos à visitação pública em final de semana. Antes, numa quarta-feira, dia 18, o Kashima foi aberto para jornalistas brasileiros. E esta visita revelou as diferenças no comportamento dos japoneses.

Econômico e formal
Em uma ampla sala do navio-escola, havia apenas uma grande mesa de aproximadamente 10 metros, com duas cadeiras. Sentados, o comandante da nau, o contra-almirante Chikara Inoue, e o tradutor destacado pelo Consulado Japonês. Do outro lado da mesa, em pé, cerca de uma dúzia de jornalistas. A entrevista coletiva com o comandante aconteceu em tom formal, com respostas enfáticas, objetivas e econômicas.

O tradutor conferiu um tom absolutamente lacônico à entrevista, usando a todo o momento flexões geladas: “Foi perguntado…”, “foi respondido…”.

Embora em tom contido, o comandante disse que era difícil expor em palavras o sentimento de chegar ao porto onde, há 100 anos, os primeiros imigrantes japoneses chegaram ao Brasil. Falou sobre o esforço dos primeiros imigrantes ao chegar e que o Brasil era um país “muito marcante”, pelos “belos cenários” naturais, como os que viu em Recife e Rio de Janeiro. Revelou não ter nenhum parente que tenha emigrado para o Brasil e disse que a principal referência que tinha da cultura brasileira era o futebol. Inoue declarou que as comemorações não marcam apenas os 100 anos da chegada dos primeiros imigrantes, mas o início de mais um século da história da imigração nipônica no Brasil.

Em tom solene, o tradutor anuncia o fim do encontro: “A entrevista está encerrada. O comandante agradece a presença de todos e pede licença para se retirar porque tem outros afazeres”.

Por dentro do Kashima
Em seguida, os jornalistas foram levados para conhecer as instalações do “Kashima”, ciceroneados pelo subcomandante da embarcação, Osishiro Sakai. Antes de responder a cada pergunta, fazia uma grande pausa e as respondia com frases econômicas. Demonstrou certa apreensão com a possibilidade de o grupo se dispersar.

Os detalhes do navio impressionaram os jornalistas, pouco acostumados a navios de guerra —ainda mais da Marinha japonesa. Logo na entrada, um pequeno altar evidenciava a importância da religiosidade para os tripulantes.

Na torre de comando, havia uma cadeira forrada com um vistoso tecido vermelho —local exclusivo do comandante Chikara Inoue. Em prateleiras, diversos livros, mapas e outras publicações. Uma delas era uma espécie de catálogo de navios de guerra de outros países, escrito, evidentemente, em ideogramas japoneses. Em uma prancheta, um mapa e uma calculadora com teclas com algarismos romanos e, claro, ideogramas.

No convés, um binóculo garantiu a diversão dos visitantes. Por suas lentes, era possível ver em detalhes uma criança empinando pipa na favela da Prainha, do outro lado do canal do estuário, em Guarujá. Ou então, mirando para o lado da cidade, por entre os vãos dos prédios, um navio deixando a barra. Ou operários trabalhando no telhado de um prédio, próximo à caixa d´ água da Sabesp, na avenida Pedro Lessa.

Ao ser questionado sobre o poderio de fogo do Kashima, Osishiro diz que não está autorizado a dar este tipo de informação. Perguntei, então, quando foi a última vez que um navio entrou em ação, em um combate de verdade. Ele responde que, desde a Segunda Guerra Mundial uma embarcação japonesa não se envolve em uma batalha. “Mas a relação com a China não é das mais amistosas”, retruquei. O oficial deu um leve sorriso e disse: “O Japão é um país pacífico”.

Ao fim da visita, no convés principal, marinheiros desenrolavam um tapete vermelho. Mas não era para nós e sim uma preparação para os convidados do jantar que seria servido à noite…

O menino de Kyoto
Foi em um evento comemorativo no próprio Armazém 14 do Porto, onde o Kasato Maru havia atracado 100 anos antes, que conheci Takanobu Sakagami, então com 23 anos, repórter do “Nikkey Shimbum” (jornal produzido em São Paulo, em ideogramas, para colônia nipônica), destacado para cobrir os festejos do centenário em Santos.

Japonês de Kyoto, ele estava havia menos de um ano no Brasil. Apesar de ter estudado língua portuguesa em Kyoto, tinha certa dificuldade para entender e ser entendido no idioma.

Além da dificuldade com o idioma, Sakagami aparentava estar completamente perdido e me elegeu como seu porto seguro para tentar entender o que acontecia ao redor. Acompanhamos juntos a cerimônia, que inclui uma série de discursos e a inauguração de um monumento para marcar a data. Ao final, foi servido um generoso banquete, com comidas típicas japonesas e muito sakê —depois do dever cumprido, evidentemente que me esbaldei e voltei para casa rolando de tanto comer e um tanto à deriva.

Perguntei a Takanobu se os sushis e sashimis servidos naquele evento eram tão bons quanto os feitos no Japão. Ele fez um breve silêncio e respondeu:
– É gostoso, mas é diferente.
– Diferente como? O gosto deste é mais forte, mais fraco…?
– O do Japão é mais cru!
– Como assim? Os dois são crus, cru é cru…
– O sushi feito no Japão tem mais gosto.

Presença real
No dia seguinte, aconteceu o principal evento em Santos que marcou o centenário da imigração japonesa: a inauguração da imponente escultura concebida pela artista plástica Tomie Ohtake na plataforma do emissário submarino, com a presença do príncípe japonês Naruhito.

Foi armado um rigoroso esquema de segurança: policiais militares, civis, federais, seguranças a paisana. Tudo para que nada desse errado, devido à presença do príncipe.

Os convidados acompanhariam a cerimônia de longe, em um toldo instalado a cerca de 100 metros da escultura. Aos jornalistas, foi reservado um cercadinho, mais longe ainda.

Tive sorte: como eu não sabia desta distinção, fui entrando, sem ser barrado, e fiquei entre as autoridades: o prefeito, a artista plástica Tomie Ohtake, o arquiteto Ruy Ohtake, representantes da comunidade japonesa, o comandante da PM, do Corpo de Bombeiros, vereadores, secretários, deputados…

Só percebi que estava onde não devia após ver o repórter-fotográfico Leandro Amaral ser barrado ao tentar vir falar comigo.

O príncipe chegou (em um Honda, claro) e, ao sair do carro, ficou de costas para os fotógrafos e cinegrafistas. Só se virou para eles rapidamente e deu um aceno contido. Para chegar ao palanque da cerimônia, ele ficou de frente para o local onde eu estava, permitindo que eu fizesse com tranquilidade uma sequência de fotos. Foi como bater um pênalti.

A inauguração foi rápida. O príncipe cumpriu o protocolo e caiu fora. A artista plástica Tomie Ohtake, de 94 anos, foi cercada pelos jornalistas e não escondeu a emoção. Tanta que trocou as bolas e respondia a algumas perguntas mesclando português com japonês.

Voltei a encontrar Takanobu no final da cerimônia –ele e seu inconfundível sorriso. Trocamos contatos e desejos mútuos de boa sorte e nos despedimos: “Sayonara!”

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